Onde a História se repete, há fogo.

11 set 2018
André Cristian de Oliveira
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A definição formal do que caracteriza um ser humano não é difícil de se encontrar. Em particular, gosto da abordagem dada ao tema pelo brilhante documentário brasileiro Ilha das Flores, de 1989:

“Os seres humanos são animais mamíferos, bípedes, que se distinguem dos outros mamíferos, como a baleia, ou bípedes, como a galinha, principalmente por duas características: o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor. O telencéfalo altamente desenvolvido permite aos seres humanos armazenar informações, relacioná-las, processá-las e entendê-las. O polegar opositor permite aos seres humanos o movimento de pinça dos dedos o que, por sua vez, permite a manipulação de precisão.”

O mesmo documentário define a História como “a narração metódica dos fatos ocorridos na vida dos seres humanos” — dos seres humanos que você conheceu e dos que morreram muito antes de você ter tal oportunidade.

Eis aqui um dos grandes triunfos de nosso telencéfalo altamente desenvolvido: a abstração de que algo que não é, mas que um dia foi. Você certamente nunca conheceu Isaac Newton, William Shakespeare e Leonardo da Vinci pessoalmente, mas sabem quem foram e quais suas contribuições para a humanidade – graças ao registro documental da História. É bem verdade que tal registro nem sempre é preciso; há uma longa discussão acadêmica sobre se William Shakespeare foi de fato um ser humano que viveu na Inglaterra dos séculos XVI e XVII, por exemplo. Fato é que Romeu e Julieta, Hamlet, Macbeth e Sonho de uma Noite de Verão existem, e se tornaram clássicos da literatura mundial

A História também é didática ao descrever, muitas vezes com uma riqueza de detalhes de embrulhar o estômago, acontecimentos ao longo do drama humano no planeta Terra que deveríamos prezar para que eles não se repetissem. As Guerras Mundiais, as guerras civis, as ditaduras, os assassinatos brutais, as barbáries em nome de uma crença; aprendemos o impacto destes acontecimentos não porque tenham contribuído com o desenvolvimento da humanidade, mas justamente porque não queremos (ou não deveríamos querer) que eles se repitam.

Um papel menos óbvio da História, mas tão importante quanto os já apontados, é o de servir de base para entender o que virá a acontecer de fato. Imagine-se um agricultor no Baixo Egito lá pelo século X a.C., quando os faraós ainda eram considerados herdeiros da divindade na Terra. Saber quando vai chover e quando não vai é vital para saber em que época plantar. E você já sabia que entre julho e outubro acontecia o Akhet, o período de inundações do rio Nilo, que depositava camadas de lodo nas margens, tornando o solo extremamente fértil. A História, que àquela altura era transmitida verbalmente, de pais pra filhos, possivelmente através de alegorias mitológicas, possibilitou aos homens daquela época sistematizar o método que garantiria sua sobrevivência e a de toda a civilização à sua volta; com efeito, pode-se dizer que a avançada agricultura egípcia foi a maior responsável por torná-los a primeira grande civilização humana. Tudo isso graças à análise histórica dos dados das chuvas — e eu, que trabalho com análise de dados, costumo pensar que é neste momento, e não numa oração ou prece, que mais nos aproximamos da obra divina.

Se a melhor forma de fazer a coisa certa no futuro é entender o que não deu certo no passado para não tornar a fazê-las, e entender como o mundo funciona para que possamos usufruir de tudo que ele pode nos oferecer, é evidente que um museu, espaço dedicado à memória da ciência (nossa maior dádiva) e da própria humanidade, tem uma importância tão grande quanto a de uma escola. Mais: enquanto o método escolar destina-se (e limita-se, por definição) a contar a História, os museus a escancaram em nossa face. Uma visita a um museu é o mais próximo de uma máquina do tempo — ou pelo menos não há mais nada no mundo físico que te permita permear entre os dez milênios de civilização humana com, literalmente, a mesma facilidade de passar de um cômodo a outro.

Voltemos à Alexandria dos três últimos séculos antes de Cristo, o centro de toda a cultura do mundo antigo. Os barcos que atracavam no porto da cidade eram vasculhados em busca de qualquer tipo de manuscrito; estes eram levados, copiados pelos escribas egípcios e depois devolvidos aos donos, enquanto essa cópia era armazenada e catalogada entre incontáveis outras na famosa Biblioteca de Alexandria. Três trocas de poder no Baixo Egito desencadearam inúmeros pequenos acontecimentos que reduziram o sonho do rei Ptolomeu II, de que o acervo chegasse a 500 mil exemplares diversos, a literalmente pó. Imagine quanto conhecimento se perdeu ali, por puro exercício da ignorância. Para se ter uma ideia: hoje sabe-se que Eratóstenes, um dos bibliotecários-chefe da biblioteca, não só provou que a Terra era redonda como conseguiu calcular seu raio com uma precisão de 6%. Precisamos de quinze séculos para que Cristóvão Colombo redescobrisse algo tão óbvio em nossas vidas.

E agora foi a vez do nosso Museu Nacional. Duzentos anos de vida (frise-se, em um país de quinhentos e poucos anos de descobrimento, e pouco mais de trinta de República) e milhões de anos de história que se foram para sempre. Não estou falando só dos artefatos em si; óbvio que são importantes, mas são apenas pedaços de matéria, como qualquer outra. Estou falando da nossa própria identidade, que foi consumida pelo fogo em questão de algumas horas. Da História humana contada entre aquelas paredes, construídas por D. João VI, quando da vinda da família real portuguesa ao Rio de Janeiro. De tantas vidas que dedicaram-se a estudar e explicar a origem destes artefatos, movidos pelo nosso maior instinto, que é a curiosidade.

Um museu que pega fogo, por mais que a gente tente culpar este ou aquele político pelo descaso com o maior bem cultural que podemos ter, não tem uma causa bem definida; é uma consequência de uma sociedade que, de alguma forma, tem falhado em seus preceitos mais básicos. Se não conseguimos entender a motivação da construção de um museu, é porque não entendemos o que nos fez humanos. E se não somos humanos, não temos nada.

O brasileiro, tragicamente, acostumou-se com o nada.

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